Do grotesco ao diálogo das músicas poéticas

Por Samira Santos

No fim do mês de outubro os eventos na COART não foram apenas um registro no calendário, mas sim um concentrado da cultura que, paradoxalmente, abraçou o feio, o belo, o caos logístico e a harmonia da poesia. De um lado, o projeto COART CO(m)VIDA trouxe para a exploração da ambiguidade estética com a oficina Pintura a Partir do Grotesco; de outro, o Laboratório de Estudos de Poesia e Vocoperformance promoveu a quarta edição do Lamber a Língua, focado no tema das Parcerias. A justaposição desses eventos mostra a vocação da universidade como um espaço de fronteira, onde a experimentação artística caminha lado a lado com a reflexão teórica, muitas vezes desafiando as próprias estruturas que a sustentam.

O mergulho no grotesco

A oficina Pintura a Partir do Grotesco, realizada nos dias 23 e 30, serviu como uma provocação visual e conceitual. O termo “grotesco”, derivado do italiano grottesco (de grotta, “gruta” ou “cova”), remonta à redescoberta, durante o Renascimento, de decorações murais da Roma Antiga que misturavam elementos naturais, figuras humanas e animais de forma bizarra e fantasiosa. Ao longo da história da arte e da literatura, como apontam teóricos como Wolfgang Kayser e Mikhail Bakhtin, o conceito se expandiu para denotar o estranho, o distorcido e o risonho, tornando-se uma categoria estética poderosa para expressar a crise da ordem, a fragilidade da razão e a fusão do cômico com o aterrorizante.

a oficina com Hugo Bernabé e Renan Henrique Carvalho pensando o grotesco na pintura 

(Foto: Equipe COART)

O grotesco é, em essência, a manifestação da ambivalência, frequentemente ligada ao carnaval e ao corpo inacabado, em contraste com a estética clássica da perfeição. Convidar interessados a pintar “a partir do grotesco” é, portanto, instigá-los a confrontar a deformidade não como um erro, mas como uma lente para a realidade complexa, social e subjetiva. 

O Lamber a Língua 4 

Em um registro conceitualmente distinto, o evento Lamber a Língua 4 focou na dimensão da parceria, um tema vital para o campo das poéticas vocais. A canção, o slam, a vocoperformance e o samba-enredo, todos explorados pelo Laboratório de Estudos de Poesia e Vocoperformance (LEV), são manifestações onde a voz se torna performance e a colaboração é inerente à criação. O tema Parcerias buscou uma dinâmica entre melodista e letrista, compositor e intérprete, e a intersecção entre a palavra escrita e a oralidade cantada um debate na lírica brasileira, onde a canção popular possui uma força poética gigante.

Lienne Lyra cantando com Enzo Banzo (Foto: Samira Santos)

O evento, que já se consolidou como um encontro anual de pesquisadores, ganhou um significado ainda mais profundo ao lidar com desafios imprevistos. A entrevista com o professor Leonardo Davino e sua equipe revelou a tensão e a resiliência necessárias para manter a chama acadêmica acesa em um contexto de crise.

Os bastidores 

O professor Davino sobre o cancelamento de última hora da aula dos compositores da Mangueira e a rápida transição para o formato online (e híbrido no dia seguinte) é mais do que um relato factual, é um testemunho da adaptação e flexibilidade. “A gente teve que, de última hora, cancelar e fazer o evento online,” disse Davino, evidenciando o esforço da equipe para evitar o cancelamento total. A remarcação da participação da Mangueira para o final de novembro simboliza o compromisso com a continuidade do diálogo entre a universidade e a cultura popular, um dos pilares do evento que já homenageou Caetano Veloso e privilegiou a performance vocal feminina.

Lianne arrasando no canto durante sua apresentação (Foto: Samira Santos)

A equipe, composta por figuras-chave como a doutoranda Márcia Cristina Fráguas (bolsista CAPES) e os pesquisadores/artistas Ênio Bernardes de Andrade (Enzo Banzo) e Lienne Lyra, demonstra a sinergia entre diferentes níveis de formação e experiência, o que, ironicamente, reflete o próprio tema: a eficácia das parcerias.

A celebração

O encerramento do colóquio teve sua inovação no sarau com música. A sugestão de Lienne foi de “encerrar celebrando, cantando, né, do lamber a língua para o lamber o som”. No ambiente acadêmico, muitas vezes marcado pela rigidez do debate e pela formalidade das mesas de comunicação, o sarau foi uma ruptura necessária. Liene expressou perfeitamente o sentimento: “Acho que a gente pode fazer essa playlist ao vivo, a gente pode brincar.” Este momento com apresentações de repertório autoral de Enzo, parcerias de Chico Buarque interpretadas pelo Prof. André Conforti e a performance de Lienne de João Bosco e Aldir Blanc, não foram apenas entretenimento, mas a prática encarnada da teoria. A celebração musical serviu como a prova viva do tema Parcerias e reafirmou a união entre pesquisa, criação e performance no campo das poéticas vocais.

Entre a norma e a transgressão

Os dois eventos, situados no mesmo campus e na mesma semana, representam um microcosmo da dinâmica entre arte e academia no Brasil. Por um lado, há a necessidade de institucionalização da pesquisa e a busca por um rigor conceitual, como no estudo do grotesco e da performance vocal. Por outro, há a insistência na transgressão e na criatividade.

Todos os artistas apresentando juntos o encerramento do sarau (Foto: Samira Santos)

A arte, ao longo da história, frequentemente resistiu aos moldes rígidos da academia, contudo, a universidade moderna, especialmente em instituições públicas como a Uerj, tem se transformado em um espaço crucial para abrigar e legitimar a pesquisa artística, a performance e a cultura popular.

Ao final, o sucesso da semana na COART não está apenas na qualidade dos debates ou na expressividade das pinturas, mas na capacidade de sua comunidade de converter o imprevisto em oportunidade e de transformar o estudo teórico em celebração. A parceria não foi apenas um tema: foi o método de trabalho, a força motriz que permitiu que, em meio a incertezas, a voz, o traço e o pensamento crítico continuassem a ecoar e a inovar.

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