COART abre Mês da Consciência Negra com luta e memória 

Da Capoeira Angola à exposição Um corpo no mundo, a programação da Uerj questiona o deslocamento e a violência que atravessam a existência preta

Por Samira Santos

O mês de novembro, tradicionalmente dedicado à celebração e reflexão sobre o feriado da Consciência Negra, ganhou um significado profundo e historicamente ancorado, na COART. A programação especial, que se estende ao longo do mês, não se limita a um calendário de eventos, mas se estabelece como um manifesto artístico-cultural que utiliza a arte como ferramenta de memória, resistência e construção de um lugar de dignidade. A diversidade de linguagens, desde capoeira à dança, do cinema às artes visuais, reflete o compromisso institucional em pautar o protagonismo negro, especialmente em um contexto atravessado por violências históricas e contemporâneas.

Abertura da exposição Um Corpo no mundo (Foto: Equipe COART)

A abertura da programação foi marcada pela exposição Um corpo no mundo, da artista Daiane Lúcio, um ponto de partida que imediatamente estabelece o tom de introspecção da curadoria. A exposição, que faz uma referência direta ao álbum da cantora Luedji Luna, mergulha nas experiências complexas e transgeracionais do deslocamento do corpo de uma mulher negra. 

Para Rafa Éis, orientador da área de Artes Visuais e um dos responsáveis pela curadoria, o trabalho da artista aborda as vivências de um corpo que carrega o peso do deslocamento forçado. Rafa explica que a obra de Daiane é, em sua essência, uma busca pelo “próprio lugar no mundo, um lugar de dignidade, de resistência,” combatendo a sensação de ser “imigrante na própria nação, mas também como refugiado na própria nação”. Esta busca por um porto seguro, por um território de pertencimento em meio à diáspora interna e externa, ressoa como uma identidade que sempre esteve em movimento.

Daiane Lucio (com um tope bege e uma calça branca) com amiga na sua exposição 

(Foto: Equipe COART)

A responsabilidade de montar essa programação, segundo Rafa Éis, é sentida de forma intensa, especialmente quando os eventos se aproximam de um contexto de violência de Estado. O orientador fez questão de frisar que a agenda deste mês não pode ser vista como mera celebração, mas como uma reafirmação da luta. Ele evoca a memória de Zumbi dos Palmares, assassinado em novembro, e a invasão de Palmares por Domingos Velho, para traçar um elo entre o passado e o presente. 

“Isso atravessa de maneira muito intensa o nosso trabalho, sobretudo no Mês da Consciência Negra, que, enfim, não vejo como um mês de celebração. A gente está falando sobre o mês no qual Zumbi foi assassinado” e mostrando como a relação violenta entre o Estado, a favela e o corpo preto ainda reverbera nos dias atuais. Ele ver os projetos vindo à luz, após tanto tempo de dedicação e cuidado, é como “ver o nascimento de um filho,” uma ação que transcende a universidade e acolhe toda a comunidade atravessada por esses temas.

Treino aberto de Capoeira Angola

A arte do movimento e da ancestralidade se manifesta também nos treinos abertos de Capoeira Angola, conduzidos pelo Mestre Marcelo Coqueiro, servidor da administração da COART. A capoeira é mais do que uma luta ou uma dança, é uma manifestação viva da cultura preta, e Coqueiro aproveita a visibilidade do Mês da Consciência Negra para expandir o alcance da prática que já mantém na universidade desde 2009. “Eu só acho interessante aproveitar o mês da consciência negra para abrir esse treino, porque a capoeira angola é uma prática de cultura preta” afirma Coqueiro.

Treino aberto com o Mestre Coqueiro (Foto: Equipe COART)

O Mestre Coqueiro dedicou parte de sua fala a educar o público sobre a Capoeira Angola, diferenciando-a de outras vertentes e explicando a confusão comum entre o treino e a roda. Para o público que desconhece, todo encontro é uma “roda”, mas ele explica: “Treino é treino e roda é roda.” No treino, não só se aprende a capoeira, mas também se realiza o exercício físico, o alongamento e a discussão teórica. Já a roda é o “ápice”, o momento onde a “magia” acontece, em que o conhecimento e a habilidade adquiridos são colocados em prática. 

A escolha da Capoeira Angola e não da Regional é um ato de preservação e reconhecimento histórico. Coqueiro explica que a capoeira, trazida pelos africanos escravizados, não existia na forma que conhecemos hoje no Brasil, mas certamente veio com eles. A distinção surgiu na década de 1930, quando Mestre Bimba criou a Luta Regional Baiana, que evoluiu para a Capoeira Regional. 

Em contraponto, um grupo de capoeiristas, com foco na preservação da essência mais antiga da prática, decidiu chamar sua modalidade de Capoeira Angola. O nome é uma homenagem à origem da luta, que remete à região do Congo-Angola. Os treinos abertos, em parceria com a NGOMA Capoeira Angola, ocorrerão nas segundas-feiras ao longo do mês, reforçando a COART como um espaço de saber corporal e histórico.

Mestre Coqueiro e seus aluno durante o treino (Foto: Equipe COART)

Uma programação diversificada

A diversidade da programação continua com eventos que buscam construir pontes entre a academia e a comunidade. O Quintal Cultural sediou o Painel Trajetórias Negras na Arte, uma iniciativa fundamental para o fomento de redes de troca e o compartilhamento de pesquisas e trabalhos com protagonismo negro. Quatro propostas foram selecionadas, abrangendo temas como a “Série Nebulosa” de Carolina Castro e a análise da “Antropofagia da Cultura Ballroom no Brasil & América Latina”, apresentada por Theuse Luz D’Pavuna. Esse painel é um reconhecimento explícito da necessidade de descentralizar a arte da academia e dar palco a narrativas e estéticas que foram historicamente marginalizadas.

O Curto Circuito, marcado para o final do mês, seguirá a linha da pluralidade artística. O público poderá assistir a performances que cruzam dança, música e artes visuais. Entre as atrações, destacam-se a Dança com Rafo Avelino e sua performance “Sua bença mãe”, a Música com Lilian Amancai e seu “Musso Ngoni” e as Artes Visuais representadas por Rona Neves com a “incorporação N° 1 / defumação”. 

Finalmente, a programação de Consciência Negra da COART será encerrada em grande estilo com o show da Banda Trevo, que apresentará o “Repertório Consciência Negra”. O espetáculo será uma dedicatória a grandes nomes negros da Música Popular Brasileira (MPB), prestando homenagem a gênios como Djavan e Luis Melodia. O encerramento musical, marcado para o dia 28 de novembro, é um ato de celebração de toda a programação intensa que a COART preparou para esse mês.

Em sua totalidade, a programação da COART demonstra uma curadoria atenta e engajada, que reconhece a urgência de tratar o Mês da Consciência Negra com a seriedade que a data exige. Ao expor a arte de Daiane Lúcio e a filosofia de luta do Mestre Coqueiro, ao mesmo tempo em que abre espaço para debates e manifestações em diversas linguagens, a Uerj, através da COART, cumpre sua como um polo de cultura, conhecimento e, sobretudo, um espaço de acolhimento. A luta pela dignidade, como apontado por Rafa Éis, é uma responsabilidade diária, e o Mês da Consciência Negra serve como um potente farol para iluminar essa jornada. 

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