Por Samira Santos
O Teatro Odylo Costa, filho foi palco de um encontro entre a academia e a cena cultural carioca. A Mostra Uerj de Teatro (MUT), em sua primeira edição, concretizou a missão da COART de ser um centro que valoriza a produção de escolas e universidades. O evento, que aconteceu nos dias 8 a 10 de outubro, abriu as cortinas do teatro da Uerj para espetáculos que nascem nos ambientes de ensino e formação teatral do Rio de Janeiro.
Realizada pela COART em parceria com a Divisão de Teatro da Uerj, a MUT não se limitou à exposição: a proposta central, como ressaltou Filipe Codeço, orientador da área de artes cênicas e um dos idealizadores, era criar um “espaço de reflexão e não só um espaço de exposição das obras”. Todas as apresentações foram seguidas de mesas de diálogo abertas ao público, com a presença das produções e de um(a) mediador(a), para debater o processo de construção das obras.

Coordenadora Ilana Linhales dando algumas palavras no evento MUT (Foto: George Magaraia )
Das escolas para o palco
A curadoria da MUT selecionou três espetáculos que representaram a diversidade da produção cênica no Rio de Janeiro. A programação trouxe ao palco a voz de duas grandes instituições, a Escola Técnica Estadual de Teatro Martins Pena (ETETMP/FAETEC) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A Martins Pena abriu a Mostra com Apocalipse 1,11 – Brasil em Vertigem, uma adaptação livre inspirada na obra do Teatro da Vertigem, que expôs o colapso moral, social e político do Brasil contemporâneo através de símbolos e visões do Livro do Apocalipse. Já da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), vieram dois espetáculos. O primeiro, O Espectador condenado à morte, trouxe a obra de Matéi Visniec para um formato onde a quarta parede é quebrada e um espectador se torna o réu. A peça abordou temas como alienação, resistência e pena de morte, com um elenco que colocou em cena debates sobre questões de gênero e raça no judiciário.

Cena da peça Apocalipse 1,11 – Brasil em Vertigem (Foto: George Magaraia )
O julgamento
O Espectador condenado à morte (UFRJ) utilizou o jogo cênico e a improvisação como pilares para tratar de temas difíceis como a pena de morte com leveza e humor. A quebra da quarta parede se relacionou com as questões de gênero e raça no judiciário ao subverter expectativas: os atores, em sua maioria brancos, discutiram intencionalmente sobre quais espectadores poderiam ser escolhidos, e buscaram uma pessoa branca com “cara de criminoso” para questionar paradigmas e o racismo velado no sistema judiciário brasileiro. O elenco, ao abordar o quão impositivo e opressor o sistema é, sobretudo com a população preta e periférica, optou por nunca colocar quem normalmente já sofre essas acusações no lugar do espectador condenado. A direção e o elenco ressaltaram que a interação com a plateia foi uma preciosidade, e um exercício de escuta aguçada. O principal aprendizado técnico para o elenco foi a confiança no coletivo e em si mesmo, permitindo-se “viver o que a situação está colocando e jogar com o elenco”.

Peça O Espectador condenado a morte (Foto: George Magaraia )
O segundo espetáculo da UFRJ, que encerrou a mostra, foi RealitxiStár, um ousado reality-show teatral improvisado. Seis atores competem pelo título, incorporando arquétipos inspirados em figuras icônicas de programas de auditório e reality shows brasileiros. A peça, dirigida por Igor Gonçalves, não é apenas entretenimento, mas sim o fruto de uma profunda pesquisa, sendo o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) do diretor na UFRJ.
A atriz Carolina Bonjour revelou que o espetáculo representou um desbloqueio pessoal, pois a maior descoberta técnica e artística para ela foi o “saber improvisar” e RealitxiStár foi “o empurrãozinho” que ela precisava para superar o pavor do improviso. Já Gabi Nogueira, atriz que faz o papel da apresentadora, aponta que seu maior aprendizado foi “compreender o papel da mediação cênica na improvisação”. Para ela, a função da apresentadora é fundamental para “sustentar o jogo e o tempo da cena”.

Apresentação da peça RealitxiStár (Foto: George Magaraia )
A atriz Carolina acredita que o propósito da peça é “deixar explícito pro público que nem todo mundo é 100% bom ou 100% mal” e “colocar o público pra refletir sobre os absurdos que a gente vê na cena e na vida”. Carla Valentin também atriz destaca que, como nos reality shows televisivos, o público pode influenciar, mas nem tudo depende dele, mostrando como os acontecimentos podem ser construídos. O elenco busca provocar o público a “refletir sobre a espetacularização das relações humanas e sobre o quanto nos tornamos também personagens dentro dos ‘reality shows’ da vida real”.

Cena de improviso na peça RealitxiStár (Foto: George Magaraia )
O diálogo pós-apresentação da MUT foi considerado muito rico e gratificante, pois possibilitou ao público conhecer a fundo a metodologia da Cia. Patacoada. O diretor destacou que o público só conhece uma das sete possíveis facetas de cada jogadora do elenco, e que o treinamento é fundamental para “saber lidar com o imprevisível, saber lidar com o erro e perder o medo de errar”.
O gran finale da cena carioca
Na visão do diretor Gonçalves, o legado da MUT é justamente este: furar a bolha, ressaltando a dificuldade de espetáculos universitários saírem da academia para atingirem novos públicos. A MUT, ao dar “suporte técnico de altíssima qualidade e oportunidade” de ter registros profissionais, se torna uma “vitrine para esses trabalhos incríveis”. A Uerj cumpre seu papel de universidade pública, e a realização da Mostra Uerj de Teatro, organizada por toda equipe da COART e com o apoio técnico da Divisão de Teatro, é uma celebração e um reforço do encontro físico e da reflexão, essenciais para a arte.


