Data: 17/11/2025
Texto: Lívia Nunes
“Definir arte é sempre tarefa difícil”. A frase curatorial não mente, mas o sucesso da exposição “Expressões da Arte Popular Fluminense” aponta que a Galeria Candido Portinari conseguiu fugir dos temidos “lugares-comuns”. Foram mais de 1,7 mil visitas registradas e diversos elogios à temporada, que seguiu de 22 de setembro até a última semana, em 14 de novembro. A mostra ganhou ainda maior materialidade com a produção do catálogo que apresenta cada obra e artista participante. Foram mil impressões e estão disponíveis gratuitamente na própria galeria.
— Eu acho que toda mostra, se ela não é documentada com catálogo, ela se perde no tempo. Os catálogos são sempre um documento que fica de algo que aconteceu. Essa exposição, por exemplo, eu acho da maior importância porque ela registra um momento dessa chamada arte popular no estado do Rio de Janeiro, que normalmente é uma coisa invisibilizada. Você discute arte no estado do Rio e tem sempre o foco numa determinada direção, seja da arte contemporânea, seja da arte de elite, e não se percebe que existe uma produção viva, efervescente, dinâmica que é a chamada arte popular — disse o curador Ricardo Lima.

A exposição “Expressões da Arte Popular Fluminense” foi uma realização da Coordenadoria de Exposições de Artes (Coexpa) — um dos braços do Departamento Cultural da Uerj (Decult). Democratizar o espaço e o acesso às diversas expressões em artes visuais é uma das missões da gestão, que ressalta “não haver nenhum interesse na hierarquização de saberes, já que a universidade é, e merece ser sempre, um espaço múltiplo e democrático”, como refletiu Alexandre Sá, o atual Diretor do Decult.
Com curadoria de Jorge Mendes, além do já citado Ricardo Lima, a mostra reuniu o trabalho de 17 artistas naturais do Rio de Janeiro ou nele residentes. Foram utilizadas diversas técnicas, linguagens e matérias-primas. São pinturas, esculturas, bordados, caricaturas e instalações que chamaram a atenção dos visitantes e atraíram também grupos escolares, como no caso das professoras Cláudia Fabiana Cardoso e Patrícia Camargo, da Escola Técnica Estadual Ferreira Viana, pertencente à Faetec. Elas levaram uma turma de 23 alunos para conferir a exposição.

— Trouxemos um grupo dos cursos técnicos da Faetec para assistir a exposição e também para assistir à peça “Cabeça de Papelão”, baseada num texto do João do Rio, aqui no Teatro Odylo Costa, Filho. Essa é uma das ações do nosso projeto chamado Laboratório de Leituras Conceição Evaristo. Para além das aulas nas salas, trabalhamos outras metodologias, com o incentivo à arte e à cultura. É importante nós estarmos falando de arte, de construção de cidadania, da formação integral do estudante. Não só na área técnica, mas na formação básica que a gente chama de ensino médio — disse Cláudia.
A vitaliciedade da arte popular fluminense foi exposta através do trabalho dos artistas Adelson, Ademilson Felipe, Dan, Da Penha, Dona Coca das Conchas, Elpídio Maradona, Gabriel dos Santos, Geidson de Oliveira, Getúlio Damado e Hernandes da Silva, além de Jorginho Brito, Lena Abayomi, Luciana Ribeiro, Marcelo Conceição, Marisa Silva, Nego, Renatinho. São dezessete artistas que podem ser melhor conhecidos em fotos e textos presentes no catálogo da exposição, produzido pela própria equipe de programação visual do Decult.

Muitos dos que passaram pela mostra fizeram questão de deixar recados, como a professora Andréa Oliveira que registrou suas palavras: “Maravilhosa exposição! Muito representativa do nosso momento no país. Estou emocionada e feliz ao saber que esses artistas brasileiros estão sendo vistos! Muito obrigada! Que seja a primeira de muitas”. E, apesar da desigualdade e de diferentes possibilidades de realizações entre os setores público e o privado, o diretor do Decult ressalta que a importância de buscar caminhos.
— Por certo, no Brasil, além de uma estrutura política que preza o apagamento das diferenças e a ausência de reflexão, autorizada pela maioria da população, temos uma desigualdade brutal de financiamento que só aumenta a real distância entre o público e o privado. Aqui, estamos tentando outros caminhos. Apesar de. E sem as/os artistas, curadores, docentes, discentes, técnicas e técnicos, nada disso seria possível. Que continuemos com os pés firmes na história, apesar do esforço cotidiano devastador. Apesar de — finalizou o diretor do Departamento Cultural.


